quarta-feira, 27 de abril de 2022
Que se faz quando se deseja algo?
A maioria das vezes sonha-se. Sonha-se muito. Com que se irá ser, com o que se irá fazer ou onde se irá. Por vezes, os sonhos entrelaçam-se e tudo aquilo que se vislumbra enquanto fantasia acaba por ser uma e mesma circunstância. Ou então, carrega-se uma mochila robusta, agarra-se uma ou duas ideias do que se quer fazer ou ver e parte-se. Para descobrir aromas, para ver paisagens diferentes. E contempla-se. Por vezes é esse o objetivo. Nem que seja chegar a um sítio só para se poder sentar e ficar a olhar o que defronte da visão se desenrola.
“Desce para Sul. Atravessa o Alentejo. Passa para Granada e Córdoba. Entra em África por Tânger. Depois…dirigi-te a Sudeste para o Erg Chebbi. Aí, segue para Leste, passando a Argélia, a Tunísia e a Líbia (obrigatório passar por Sabratha e Tobruk). Continua pelo Egipto. Alexandria de Kavafis, a região do Faiyum, Siwa e Kabrit. Jerusalém. No dorso de um dromedário vai ao Sinai. Depois, a Jordânia e a cidade de Petra. Faz uma inflexão à Península Arábica. Quando chegares ao Hijaz, lembra-te de Lawrence. Senta-te no Empty Quarter e bebe um chá por Lawrence e Thesiger. Vai ao Mar Vermelho, bordeja a costa num dhow. É tempo de subir à Síria, até Palmyra, mas seguido a tradição de só lá entrar pela hora do beduíno. Continua para Norte, depois Noroeste, até chegares à sublime Bizâncio e atravessar o estreito do Bósforo, onde se separam as águas do Mar Negro e do Egeu. E a Grécia. Faz a triangulação Atenas, Rhodes e Creta (num caíque a beber ouzo e a escutar o bouzoki). Daí, podes fazer escala em Corfu ou Dubrovnic, sem esquecer que é essencial ir a Vis. Pára aí. Há tempo de passar o Adriático, indo para o Lago Comacchio e seguir para Veneza. Entrar pela Porta do Oriente (de costas voltadas ao Ocidente). Agora sim. Podes quedar-te por essas ruas ladeadas por água. E finalmente sentir saudades das areias vermelhas, do ar quente dos desertos e infindáveis mares de dunas. Das colunas de mármore com muitos séculos e que muito presenciaram ou de todas as diferentes pessoas com quem te cruzaste. Fizeste o teu périplo, tal como o fizeram antes de ti Baldassare, ou Leão o Africano. E tal como eles, escolhe o teu lugar para permanecer e aí saboreia as recordações que guardaste na mente. Serão elas que te irão dar ânimo nos restantes dias e fazer com que sintas novamente aquele desejo e ânsia para novamente partir numa nova direcção e procurar novos aromas e paisagens que te farão pensar em coisas diferentes. Começa de novo a sonhar. África.
África de Lucy, do Boisei e outros distantes antepassados, que também eles fizeram o seu périplo. O Erectus, que teve a audácia de se aventurar por grande parte do globo e assim espalhar o género Homo.
África, palmeiras, barcos, rum, mares por estrelas iluminados, paixões despertas pelo calor e que a humidade ajuda. África da época colonial, quando se dizia que o tempo corria dolente. As tâmaras que se desfazem na boca, a água de coco que afasta a sede, a tagine kefta que conforta nas refeições nocturnas quando o deserto se faz frio. África, do deserto à savana, onde a minha alma se perde e para onde remeto os pensamentos que não contam.
África…
Tinha de captar aquilo de alguma forma. Deixei a máquina e agarrei o caderno de esboços. Saí. Fui desenhar. Ignorei por completo a presença dela. Pegou na minha máquina e fez uma das mais belas fotos que vi até hoje. ... Estava a desenhar, absorvido por toda a ambiência e querendo fazer parte da mais ínfima fibra das palmeiras, que deviam as suas formas contorcidas ao harmattan. E não me apercebi o quanto me estava a distanciar dela...
















































