A flor do cacto, o ondular do bambu e palmeiras bravas
quarta-feira, 29 de março de 2023
segunda-feira, 22 de agosto de 2022
"Travessia das gargantas do Todra em toda a sua extensão - 150 km - sendo que a "estrada", era definida como "chemin carrousable" (depois de passar por lá a minha definição é rigorosamente a oposta, mas era o que estava escrito nas indicações viáras). Valeu por o que se avistava no fundo do vale, kasbahs vermelhos, vales profundos como palmeiras de copa verde vibrante, oueds ressequidos, mas belos, até que finalmente se chegou a Goulmima.
De Goulmima direto a Merzoga, pelo meio paragem (bivouac) no kasbah Tomboctou. Houve um convite para jantar de uma família de touaregs, com sessão musical providenciada ao som de tam-tams, gnawas e uma bailarina de com véus - morena, de olhas verdes, parecia um leopardo a rondar. De manhã cedo, partida para o Grande Erg Chebbi. O Erg é algo de fantástico. Tanto na sua amplitude como nas várias tonalidades que a areia apresenta. As duna vermelhas são algo não se descreve. Só memso quem observa."
De Goulmima direto a Merzoga, pelo meio paragem (bivouac) no kasbah Tomboctou. Houve um convite para jantar de uma família de touaregs, com sessão musical providenciada ao som de tam-tams, gnawas e uma bailarina de com véus - morena, de olhas verdes, parecia um leopardo a rondar. De manhã cedo, partida para o Grande Erg Chebbi. O Erg é algo de fantástico. Tanto na sua amplitude como nas várias tonalidades que a areia apresenta. As duna vermelhas são algo não se descreve. Só memso quem observa."
terça-feira, 3 de maio de 2022
segunda-feira, 2 de maio de 2022
O cavalo Sorraia e o Zebro
O Zebro e o seu parente geneticamente mais próximo, o Sorraia, são espécies ancestrais do género Equus, a par do Cavalo de Przewalski (espécie em risco e a única que existe ainda em estado selvagem) e do Tarpan (na prática extinto, havendo alguns exemplares resultantes de criação selectiva).
Nas escavações efectuadas por Irisalva Moita em Vila Pouca (Monsanto), entre 1959 e 1960, foi recuperado diverso material osteológico, nomeadamente ossos de equídeos. Não há registo que tenham sido analisados na altura da sua descoberta, sendo estudados somente em 1994 por Miguel Telles-Antunes e Santinho Cunha. O interesse desses ossos reside neste aspecto: os investigadores avançam com a sugestão de que um deles poderia ter pertencido a uma espécie de cavalo hoje extinta, o Zebro.
O desaparecimento do zebro é ainda assunto pouco estudado, mas permaneceu no imaginário popular, na onomástica e topografia rústica, como “Vale do Zebro”, “Ribeira do Zebro”, “Zebreira”, “Zibreira” ou “Zebrão”, entre outros. Assim como também não é clara a relação de parentesco entre o Equus hydruntinus, o Zebro e o Sorraia. Sabemos sim que, em termos genéticos, há parentesco entre o Zebro e o Sorraia.
As inúmeras manifestações de arte rupestre existentes em Portugal e na Europa mostram imagens de um equídeo muito diferente dos cavalos actuais, mas semelhante ao actual Sorraia, ao Tarpan e o de Przewalski, como podemos observar em Foz Côa ou na Gruta de Escoral.
Não existe a possibilidade de os ossos serem confundidos com outra espécie, o burro, pois esse animal como o conhecemos só chegou à Península Ibérica por volta do século VIII a.C. Mas isso é uma outra história a que voltaremos um dia...
O Cavalo Sorraia deve a sua actual existência a Ruy d’Andrade.
Nascido em Génova em 1880, com formação académica em ciências agrónomas, com tese de doutoramento defendida na Universidade de Paris, tendo lecionado cadeiras de agronomia na Universidade de Pisa. Terá uma carreira diversificada, desde deputado da assembleia durante a monarquia, presidente da câmara de Elvas, agrónomo, arqueológo e reputado hipólogo. Será essa faceta de hipólogo que num acaso, quando caçava narcejas em Coruche, reparou numa manada de cavalos, aparentemente selvagens e de aspecto diferente. Eram de facto. Depois de diversas tentativas, Ruy d’Andrade conseguirá obter éguas e garanhões desses estranhos cavalos avistados e serão os seus esforços que irão salvar esta espécie equídea, autóctone do território português. Devido ao local onde primeiro os avistou, irá dar-lhes o nome de Sorraia (devido ao facto de ser na confluência dos rios Sor e Raia).
O Cavalo do Sorraia pode ser descrito pelas suas características de ar primevo. A cabeça pouco alongada e nariz curto, perfil convexo, o pelo listado nos costados (nos potros) e membros posteriores, a pelagem de cor baia ou parda e a pequena estatura fazem dele um cavalo singular e em tudo semelhante ao que podemos observar nas representações de arte rupestre.
Quanto ao Zebro, as descrições medievais coincidem um pouco com as do Sorraia, variando no aspecto de serem mais zebrados nos quartos traseiros.
Na região de Lisboa, há milénios atrás, a paisagem que poderíamos observar seria substancialmente diferente, constituída por um coberto arbóreo de feição atlântica, onde pontuavam várias espécies de Quercus, assim como a nogueira, o zambujeiro, bétulas e choupos.
No meio cidade de Lisboa, há uma mancha florestal que nos remete para esse tempo distante: Monsanto. O bosque “criado” nos anos 40.
Mas regressemos ao contexto onde viveu uma espécie animal hoje extinta, o equídeo Zebro.
Parece certo pelas informações arqueológicas e descrições de autores da Antiguidade Clássica, houve um tempo em que os cavalos correram à solta no território Lisboeta.
Atentemos às seguintes menções a essa ancestral realidade nas palavras de diversos autores :
“A partir do Tejo, as cidades dignas de menção, na costa, são Olisipo, conhecida por as éguas serem fecundadas pelo vento Favónio […]” Estrabão (c. 64 a.C. a 23 d.C.), Geografia, 3.2.5.
“Diz-se que na Lusitânia, em torno da cidade de Olisipo e do Rio Tejo, quando o vento Favónio sopra, as éguas, voltadas para ele recebem o sopro de ar, e deste modo gera uma cria velocíssima, mas que não excede os três anos de vida.” História Natural, 8.67.116. Plínio-o-Velho (23 d.C. a 79 d.C.)
“Este vento fecunda as coisas que vivem da terra, efectivamente até as éguas na Hispânia.” História Natural, 16.39.93. Plínio-o-Velho (23 d.C. a 79 d.C.)
“ […] Acontece algo fantástico na Hispânia, mas verídico, porque na Lusitânia, junto ao Oceano, na região onde se localiza o oppida de Olisipo, no Monte Tagro, algumas éguas concebem do vento em determinada altura (…) mas os potros assim nascidos não vivem mais do que três anos.” Res Rusticae, II, 1.7. Marco Terêncio Varrão (116 a.C. a 27 a.C.)
Lúcio Júnio Moderato, conhecido como Columela (4 d.C. a 70 d.C.), nas suas obras, De res rustica e De arborius, refere igualmente o vento e as éguas fecundadas, mas localizando-as no Mons Sacer e não Mons Tagro.
O vento Bóreas, cobiçava as éguas de Erictónio (rei mitológico de Atenas), mas sendo um elemento não corpóreo nada poderia fazer. Então, materializando-se na forma de um garanhão, emprenhou-as, dando estas à luz doze potros, tão rápidos que as espigas de trigo não se curvam sob o seu peso, e quando corriam sobre a superfície do mar não o encrespavam.”
Pierre Grimal, 2004, Dicionário da mitologia grega e romana. Difel, p. 62.
Em relação às origens do vento denominado de Bóreas, na mitologia grega de época arcaica (século IX-VIII a.C.), este elemento da natureza é chamado por Bóreas ou Ophion, que seria o “Pelor”, a “serpente prodigiosa”, que segundo Robert Graves poderia ter origens nas antigas religiões do Neolítico (Robert Graves,The Greek Myths, 2011, p.28).
“O cavalo pareceu atrair a particular atenção dos artistas da Pré-História. Por cada quatro animais desenhados, pelo menos um aparece ligado à imagem de um cavalo. O cavalo teria então significado específico para essas populações, mas é impossível dizer o quê em concreto. Uma quase primazia do cavalo” (Georges Sauvet, 2009, 2020)
Fêmeas e potros de cavalos Sorraia, semi-selvagens. Fotos feitas em Alpiarça, em 2018.
quarta-feira, 27 de abril de 2022
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